quarta-feira, 3 de abril de 2013



"precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia"

"A Máquina de Fazer Espanhóis" de Valter Hugo Mae

A propósito deste livro:

À primeira o título não me inspirou confiança; parecia tratar-se de uma qualquer piada ibérica.
Ultrapassada tal reserva o livro veio para a minha leitura e passou a ser um dos livros preferidos.
 Os títulos de cada capítulo são imagens de uma realidade genialmente descrita em letras minúsculas. "o fascismo dos bons homens", "o amor é uma estupidez intermitente mas universal" "o esteves a transbordar de metafísica" "cidadãos não praticantes" "deus é uma cobiça que temos dentro de nós" e "precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia" são alguns que destaco. Depreende-se deles uma história de solidão, de velhice, de amizade e de reencontros.
Como que de raspão mostra-se a teia política do Estado Novo, que leva um bom homem a denunciar um opositor ao regime salazarista, em nome da não sacrificável beatitude familiar.
O diálogo inicial entre o administrativo silva da europa e o silva, protagonista do livro, um quase monólogo daquele face ao resistente mutismo deste, inteira-nos com mestria no cidadão orgulhoso da liberdade conquistada, aceitando-a como dado adquirido num espaço orgulhosamente europeu, com o risco de "uma não importância que se pensa porque já nem é preciso pensar"
E a parca intervenção ensimesmada do silva protagonista varia, entre a preocupação sobre a vida da mulher hospitalizada e as interrogações comuns do seu universo como cidadão.
Magistralmente, pela escrita, sentimos o questionar da dignidade humana na sociedade actual, dos hábitos que gerem a vida, da necessária adpatação ao novo quando aqueles se rompem, mesmo que se tenha 84 anos.
Os 2 silvas são a escolha sábia de um nome e de um sentir português, como se um e outro fossem "a frente " e o "verso". No decorrer da história , a bem dizer da escrita, vários intervenientes se cruzam num misto de raiva, frustração, empatia e amor. E traz-nos ainda na vivência, um protagonista da Tabacaria de Álvaro de Campos, figura que atravessa o livro como um ídolo com o qual nos presenteia em pessoa , mandatário do génio escritor no seu heterónimo : "Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!" (Tabacaria)
A ironia mesclada de alguma inocência na imagética religiosa dá-nos pinceladas únicas de um ateísmo que se revela companheiro na figura solitária de uma nossa senhora de fátima rodeada de pombas em forma de estátua.
O lar que se afigura humano na pessoa dos companheiros e do ajudante de lar, personagem simpática e acolhedora que acompanha e suaviza a vida de cada um, não atenua o cinzentismo mórbido de uma ala com vista para o cemitério onde ficam os dependentes à beira da última viagem. Onde fica pois, o espanhol um dos mais recentes utentes e onde se constrói toda uma sombria fantasia tornada real que dá o nome ao livro.
Aí nesse lugar despede-se de nós, como se da própria vida fosse, o silva do livro por quem nos apaixonamos irremediàvelmente e a quem queremos salvar da morte no encerrar das páginas. Um silva que traz nele cada um de nós no nosso presente e no nossso futuro.
Inolvidável leitura!

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